24.10.06

Casa Rossa

Casa RossaA imaginação literária pode preencher os espaços vagos deixados pela história. A introdução de leituras da realidade a partir do subjectivo e do ficcional abrem espaço a uma visão mais alargada sobre o campo das experiências possíveis que um dado contexto histórico origina. Quem, por exemplo, quiser tomar contacto com o terrorismo de extrema-esquerda em Itália durante os «anni di piombo» – os anos de chumbo, período imediatamente subsequente ao assassinato em 1976 do primeiro-ministro Aldo Moro – terá uma boa porta de acesso em Casa Rossa, de Francesca Marciano, recentemente editado pela Dom Quixote. O universo mental do militante da «esquerda armada» – a retórica de violência, a linguagem estereotipada, a severidade auto-imposta – aparece ao longo do retrato da intransigente Isabella, irmã da narradora e uma das personagens centrais do livro, condenada por colaboração no assassinato de um magistrado da zona onde nascera. Num relato fluído e cinematográfico, somos levados a entrever os ecos da vivência carcerária e os reflexos do terrorismo nas vidas daqueles que, de uma maneira ou de outra, se encontravam próximos – vítimas, familiares, camaradas – dos homens e mulheres que encontraram na paixão política justificação para a matança. Mas não só. Este é também um livro que fala da Itália fascista e da Itália do pós-guerra, desse país que, de um dia para o outro, transformou a «rígida saudação» no «simples V de vitória», preocupado em eliminar com urgência «o busto de bronze do tio que fora prefetto, as cartas do Ministério do Interior que se dirigiam ao pai por Camerata, as fotografias das crianças na escola vestindo a camicia nera, de braço estendido na saudação romana». Ao invocar os segredos, as traições e as paixões de três gerações de mulheres, Francesca Marciano acaba por nos sugerir algo mais: o modo, enfim, como o passado se esquece ou recorda na vida de uma família e de um país.

Francesca Marciano (2006), Casa Rossa. Lisboa: Dom Quixote. Tradução de J. Teixeira de Aguilar. 398 pp. [ISBN: 972-20-2984-3]

Publicado também em Passado/Presente

9.10.06

Nota informativa

Nos próximos tempos, a cidade estará vaga. Afazeres inadiáveis e a atenção requerida pelo Passado/Presente assim determinaram. Voltarei, talvez.

2.10.06

Passado/Presente

A partir de agora estarei também aqui, num registo diferente e na feliz companhia do Rui Bebiano e do Tiago Barbosa Ribeiro.

1.10.06

Domingo no mundo

já domingoTodos os domingos são lentos. Os corpos arrastam-se rua fora, com a barba por fazer, em busca do pão da manhã. As esplanadas enchem-se de gente de bebe galões ou águas com gás enquanto olha para dentro de muitos jornais. As crianças falam alto e brincam com os cães. Os adultos parecem todos distraídos. Adormecidos. Enfim. Todos os domingos são lentos. Espelhos invertidos das noites luminosas de Sábado.