27.9.06

Segredo

brrrrrr
















Post Secret: o lugar dos ditos interditos.

25.9.06

Nona

Na 2:, a Orquestra Gulbenkian interpretava há pouco «A Portuguesa», perante uma plateia de engravatados de mão no peito e o olhar solene de Cavaco Silva. Por momentos temi que se seguisse a Mira Técnica, acompanhada daquele som contínuo e perturbador, muito contemporâneo. Afinal, veio a 9ª Sinfonia de Beethoven.

24.9.06

Insónia

Platão fundou a distinção entre corpo e alma. Uma distinção tão operativa quanto pecaminosa: o corpo tornou-se carne, a alma fumo. O cristianismo aprofundou a cisão. Descartes postulou uma glândula pineal como lugar de comunicação entre esses dois universos desavindos. Derrida falou da necessidade de desconstruir os pares dicotómicos sobre os quais têm assentado os fundamentos do pensamento ocidental - corpo/alma incluído. And so on... Á noite, em lugar dos sonhos, penso nisto - a história da filosofia tem sido a história da construção e pulverização da alma. Enquanto conto espectros de ovelhas saltitantes, gostava de conseguir imaginar-me algo mais do que fluxos e tensões. Poderia ser o começo de algo verdadeiramente estimulante.

21.9.06

A prova

César AiraO amor é um barril de pólvora, um balde de naftalina em cima de um carrinho de supermercado. É isso que Mao e Lenine ensinarão à jovem gorda que procuram seduzir. Não se trata de dar provas de amor, mas de fazê-las, de levantar poeira sem pensar muito nisso, porque só a acção irreflectida é verdadeiramente niilista. «As provas valem tanto como o amor, não porque sejam a mesma coisa nem equivalentes, mas porque abrem uma perspectiva a outra face da vida: à acção.» E já estamos perto da catástrofe.

César Aira, «A Prova». In: Como me tornei monja. Lisboa, Assírio e Alvim, 2005. Tradução de José Agostinho Baptista.

20.9.06

Against all Moss

Arquitectada nos gabinetes da alta-costura e popularizada junto das «massas femininas» através da publicidade, das telenovelas e das revistas «cor-de-rosa», a ideia contemporânea de beleza feminina tem servido para alimentar toda uma indústria de produtos e acessórios estéticos que apenas se pôde constituir a partir do momento em que a mulher se tornou numa potencial consumidora. Até lá, a beleza podia fingir o raro mas não implicava um trabalho constante e interminável sobre o próprio corpo. A partir do momento em que a mulher dispôs de poder de compra, ganhou direito a uma imagem inatingível de si própria.
Num qualquer momento da curva recente do tempo, porém, a mulher bonita deixou de ser a mulher normal mas singular, para passar a definir-se apenas pelas marcas da excepcionalidade, que hoje tendem a aparentar-se perigosamente com os limites da exaustão e da anemia. As indústrias do belo sabem que a potenciação do consumo passa por difundir simulacros de harmonia que são o exacto oposto daquilo que é o comum. É assim que, na época do desaparecimento da ideia de fome, na época em que a «má alimentação» não emagrece mas engorda, a moda simula a carestia. As modelos de hoje são cabides púberes e desconjuntados, seres próximos da androginia que concentram um baixíssimo volume de massa adiposa nas zonas onde em geral ela devia estar.
Agora chegam as boas notícias: em Espanha iniciou-se o «combate à anorexia». Com alguma dose de sorte e muito bom-senso ainda veremos a luz vermelha da passerelle a inclinar-se para iluminar as ruas movimentadas das cidades. Em busca das filhas ilegítimas da Anita Ekberg, das irmãs bastardas da Laetitia Casta, da prima em terceiro grau da Mónica Bellucci. Quem sabe, um dia.

19.9.06

Ainda o fim do Verão








Sim, o Verão acabou. Lolita está mais crescida e já caminha em matilha no meio de outras raparigas igualmente excitadas e curiosas. Carregadas de mochilas e hormonas verdes, conversam – conversam-se – sob uma manta de risos atonais e desejos inanes. Hoje, a passadeira é a passerelle. Amanhã o corpo conhecerá outras certezas.

18.9.06

A curta estação sem nome*

O Verão acabou hoje. Bem sei que não é isso que estipula o calendário. Mas as luas e as marés mentem tanto como qualquer relatório oficial. O Verão acabou hoje porque na praia - S.Martinho do Porto, por exemplo - já não estavam os pares das raquetes e os homens do e-frutóchuclate. Havia gente pouco adaptada ao espaço, alguns cães a passearem os donos, ninguém na água. À primeira vista, parece uma análise litoralocêntrica: o Verão termina quando a praia se esvazia. Mas não: também no campo a estação cessou. As filhas dos emigrantes já desbaratam sorrisos noutras freguesias. Por todo o lado, as pessoas deixam de se sentir parte dessa pátria especial que se chama em forma de promessa - Verão. E agora que ele se foi, ficamos entregues a uma curta estação de uma semana, ainda sem nome.

*Texto escrito há um ano atrás e agora recuperado (porque a natureza acredita no Eterno Retorno).

14.9.06

Elogio do devir

Num mundo oprimido pela gravidade, o movimento é a esperança que resta para se alcançar um lugar desejável.

13.9.06

Um pequeno conto (de Julio Cortázar)

Instruções para chorar

Deixando de lado os motivos, apreciemos a maneira correcta de chorar, entendido como algo que não se aproxima do escândalo, nem que insulta o sorriso com a sua paralela e torpe semelhança. O choro médio e ordinário consiste numa contracção geral do rosto e num som espasmódico, acompanhado de lágrimas e soluços, estes últimos no fim, uma vez que o choro acaba no momento em que nos assoamos energicamente. Para chorar, dirija a imaginação para você mesmo, e se isto for impossível, por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas ou nos golfos do estreito de Magalhães nos quais ninguém entra, nunca. Chegado o choro, deve tapar-se com decoro o rosto, usando ambas as mãos com as palmas viradas para dentro. As crianças chorarão com as mangas da camisa encostadas à cara e, de preferência, num canto do quarto. Duração média do choro, três minutos.
[trad. livre]

Para mais leituras:
La pagina de Julio Cortázar

Mim

O Francisco decidiu enlaçar-me simpaticamente num daqueles feixes curiosos que volta e meia percorrem a blogosfera, desta feita destinado a aferir «seis coisas sobre mim». Segue a selecção: 1. Nunca risco a caneta um livro (fotocópias sim); 2. Das poucas certezas que tenho, prezo especialmente a que me diz não existirem fronteiras entre o sagrado e o profano; 3. Às vezes sonho que ainda sei jogar à bola; 4. Um dos meus melhores amigos é um cão exilado; 5. Tenho um blogue; 6. Duvidava que soubesse seis coisas sobre mim.

11.9.06

Da morte da epistolografia

mail deliveryA epistolografia morreu. A revolução digital em curso e a evaporação de um certo peso do mundo - que nos fazia dizer coisas graves e afectadas sem que parecem sê-lo - traçaram-lhe a cova. Hoje já ninguém escreve cartas. Não falo, como é óbvio, dos postais de férias que enviamos para fazer inveja aos amigos, nem dos arrufos sentimentais do último par de amantes momentaneamente apartado. Falo daquelas cartas que circulavam no meio das outras mas que não eram propriamente cartas, eram Cartas (como o título do volume a que mais tarde dariam lugar). Falo desses mini-ensaios que os intelectuais do antigamente trocavam entre si, ensaiando sínteses entre a hermenêutica do mundo e as solicitações do quotidiano. Desses sussurros cúmplices que muitas vezes se sabiam objectos prévios de voyeurismo e que por isso eram escritos como se uma governanta maliciosa lhes estivesse prestes a deitar o olho. A epistolografia morreu, pois então, mas talvez ainda nos falte a edição dos e-mails trocados entre o venerando x e o incontornável y - com direito a prefácio, capa dura e recensões na blogosfera - para nos cobrirmos de luto definitivo.

7.9.06

Assim a luz azul, a missa

Paul Klee, Blue Night, 1937No último Vila-Matas (Da Cidade Nervosa, Campo das Letras), encontramos uma série de crónicas publicadas desde 1996 na edição catalã do El País. Quarenta e quatro textos que conseguem ser refinados mantendo ao mesmo tempo a ironia, a inteligência e a concisão. A luminosidade. Exemplar a este respeito é a crónica em que se fala do palíndromo, jogo linguístico que consiste em compor frases que se leiam igualmente da frente para trás, da direita para a esquerda. «Así me trae Artemisa», «A ser gitana, tigresa», «Salta Lenin el Atlas». Aproveitando a passagem do escritor Augusto Monterroso por Barcelona, e sabendo da sua paixão pelo exercício, Vila-Matas leva-o a percorrer a rota nocturna da cidade, invadida à época pela moda de compor frases que os espelhos não pervertem. Diante deste computador que me queima os olhos, imagino Barcelona como uma espécie de grande estaleiro medieval, onde monges afadigados se dedicam a colocar as palavras no seu lugar primordial, ao mesmo tempo que coçam a cabeça e bebem pequenos goles de Rioja – por lá há esse hábito saudável de se beber vinho tinto nos bares. E bebem, bebem, bebem, até começarem a falar para dentro, para os tampos de mármore, para o daimon de papel que cada um traz debaixo da língua. Cá está: assim a luz azul, a missa.

6.9.06

Ingrid

Hoje, dia 6 de Setembro de 2006, passam 1656 dias desde que a colombiana Ingrid Betancourt, líder do partido ecologista «Verde Oxigeno», foi sequestrada pelas FARC. Na Festa do Avante!, entre uns pulos ao som da Carvalhesa e uma espreitadela ao Avanteatro, era possível encontrar material desta organização, conhecida por utilizar o rapto e o assassinato como arma política. Será que para o PCP a defesa dos «direitos humanos» depende da retórica do agressor?

No Tugir e no Kontratempos, em permanente actualização, uma lista dos blogues que dedicaram atenção ao assunto.

3.9.06

O nome do nome

As alcunhas eram a nossa segunda pele. Na verdade, eram a primeira. Gostássemos ou não, no meio das fisgas, da bola e do sotaque, só a legitimidade do grupo valia. Nem igreja, nem Estado, nem família, nem indivíduo. Só o lugar nos baptizava. E a gente, habituada, crescia amarrado àquela ternura. Ainda hoje, quando o BI nos revela o nome, são sempre outras letras que ciciam por baixo.

1.9.06

Caso «Mateus»

futebol em agosto








Se o público (também) sou eu, aviso desde já que não tenho qualquer interesse nisto. Não quero que daqui a amanhã me acusem de cumplicidade.