31.8.06

A mulher da roda

mulher da roda

Preferimos desde sempre imaginar a história - a nossa história - como uma aventura irremediável em direcção ao sucesso. Enchêmo-la de datas fundadoras, de intervenções divinas, de gestos heróicos, talvez com o intuito pouco glorioso - como nos lembra Eduardo Lourenço - de «esconder de nós mesmos a nossa autêntica situação de ser histórico em estado de intrínseca fragilidade»*. Fugimos de Sísifo como o diabo da cruz. E acreditámo-nos Prometeu, não lendo a estória até ao fim. Apesar disso, métaforas alternativas não nos faltaram. Relembro uma - a da «mulher da roda». Apareceu num daqueles episódios do «Povo que Canta», da autoria de Michel Giacometti, que a RTP teima não só em não divulgar como em pôr à disposição dos interessados. Foi gravado em 1970, nas margens do rio Zêzere, concelho de Pampilhosa da Serra, distrito de Coimbra. Caminhando sob uma roda elevada, uma mulher retira a água do rio para irrigar os campos. E canta, hipnotizada, uma melodia de trabalho:

«Esta roda está parada
Ai por falta de tocador
Ai a roda já pode seguir
Ai que a toca o meu amor»**

Sobre a mulher da roda, disse Ana Paula Guimarães: «Numa postura de trabalho (de tripalium, tortura), técnica (capacidade de executar, levar a bom termo) e arte (a voz, o canto ritmando e gerindo o esforço), esta mulher (...) ergue-se literalmente entre o céu e a terra para operar uma transferência de lugar: ela eleva a água que há-de regar o campo que há-de dar o fruto que há-de alimentar a mulher (que há-de ter o filho) que há-de mover a roda que há-de elevar a água que há-de regar o campo...»***. Métafora do eterno retorno, pois sim. Também da água como arché (Tales dixit). Mas, sobretudo, da persistência do corpo, do esforço, do caminho. Num mundo abandonado pelos deuses, este é sempre um bom lugar para recomeçar.

* O Labirinto da Saudade. Lisboa: Gradiva, p.25.
** Uma versão baseada nesta recolha foi recentemente trabalhada pelo GEFAC.
*** Nós de Outras Vozes. Lisboa: Colibri, p.254.

29.8.06

Agenda: Perdidos

Gosto de me sentir perdido ao serão. De ver a ilha sem serenidade, nem harmonia, nem falanstérios. De desperceber tudo no episódio seguinte. De compreender que aquilo que se chama de «densidade psicológica» é uma citação contínua do tema kierkegaardiano da «decisão como loucura». De me fascinar por alguém que morrerá nos minutos seguintes. De esperar que a RTP não se ponha de novo a alterar os horários estabelecidos.

Perdidos: esta semana, na RTP, a reposição integral da 2ª série. Algures entre as 22h. e as 3h.

25.8.06

A mesma matéria

borisO monstruoso é uma desorganização do belo. Não uma desorganização que transforme a beleza em fealdade, mas que utilize a presença da beleza de modo a causar medo e repulsa. Mary Shelley pôs na boca do criador do conde Frankenstein as seguintes palavras: «Os seus membros era proporcionados, e eu tinha escolhido as suas feições por serem belas». Belas, portanto. Em separado. Juntas, as peças davam origem a um composto grotesco que causava sobressalto nas almas mais vulneráveis. Para uma pequena minoria, porém, havia lugar à esperança: a bela e o monstro podem apaixonar-se porque são feitos da mesma matéria.

Revista Minguante, nº1

Já se encontra on-line o nº1 da revista de micro-narrativas Minguante. O Banal é o tema geral que enforma um conjunto muito diversificado de contributos. Destaque-se o grafismo feliz e a entrevista a Nuno Costa Santos. Vale a pena. Asseguro-vos eu, suspeito por lá meter também a minha colherada. O tema do próximo número será O Azul e aceitam-se contribuições até ao final de Setembro.


Revista Minguante, nº1: Corpo editorial: Fernando Gomes, Henrique Manuel Bento Fialho, Luís Ene, Margarida Delgado. Grafismo e capa: Margarida Delgado. Webdesign: Fernando Gomes. Textos de Antonio Rigo, Avery Veríssimo, Carlos Veríssimo, Casimiro de Brito, Cristiane Grando, Fernando Aguiar, Fernando Dinis, Fernando Esteves Pinto, Fernando Gomes, Henrique Manuel Bento Fialho, Inmaculada Luna, João Ventura, José Carlos Barros, José Eduardo Lopes, José Manuel, Luís Ene, manuel a. domingos, Márcia Maia, Margarida Delgado, Maria João Fernandes, Miguel Cardina, Milton Ribeiro, Nelson Moraes, Nuno Camarneiro, Nuno Franco Ferreira, Nuno Moura, Paulo Kellerman, Pedro Afonso, Pedro Sousa, Rafael Miranda, Rui Costa, Rui Gil, Sara Monteiro, Sílvia Chueire, Sofia Vieira, Vasco M. Barreto e Vítor Vicente.

22.8.06

Biqueiro milenarista

20.8.06

O segredo de Günter Grass

1. À medida de cada um, todos temos segredos. Grandes, pequenos, felizes, infelizes. Günter Grass tinha um segredo e resolveu revelá-lo: pertencera em 1945 à tropa de elite nazi. O acto, em si mesmo, não é surpreendente. Milhares e milhares de alemães colaboraram com o regime, uma boa parte deles jovens como Günter Grass, à época um rapaz de 17 anos. Mas, se o passado do escritor é comum a muitos dos rapazes da sua geração, a revelação tem um impacto particular se se tiver em conta que a sua voz foi uma espécie de instância moral anti-nazi no período do pós-guerra. Se a obra não se compromete com esta declaração tardia, também é verdade que a partir de agora não é possível lê-la ignorando este facto. Não é o conteúdo do segredo, nem a sua existência que perturbam. Mas a altura em que ocorre a revelação: sessenta e um anos depois, a algumas semanas do lançamento da sua autobiografia, previsto para Setembro mas entretanto antecipado. As livrarias alemãs esperam já uma segunda edição de Descascando a Cebola. Não há como evitar: cheira a marketing.

2. De qualquer modo, parece-me de atender a uma outra questão que o «caso Grass» evidencia e que se poderia formular mais ou menos assim: o que nos diz um «segredo» deste tipo sobre o passado ao qual faz referência? Para além de revelar uma certa dificuldade em enquadrar a vivência de quem então seguiu pelo caminho mais acessível, quantas vezes obrigado pela família e pelo Estado, as leituras efectuadas a casos como este - algumas delas, pelo menos - tendem a acentuar a demonização de um tempo e de um contexto, a consideração de um quotidiano concreto como «experiência de pecado», o que acaba por promover uma visão paradoxal da história. Essencializadas como uma espécie de mal absoluto, as ditaduras vêem-se assim beneficiárias de uma espécie de indulto tácito, já que se entende a sua vigência como resultado de uma falta momentânea de razão, de uma circunstância ultrapassada, de uma inferno irrepetível. E entendê-lo assim talvez não nos leve muito para além do espanto e do tremor.

18.8.06

Um (outro) início jeitoso

«Teve uma infância estranha», disse Austin. «Em última análise, todas as infâncias o são», disse Mister DeLuxe.

Dinis Machado, O que diz Molero.

15.8.06

Milagre

Num blogue já velho e desaparecido - bela entidade, esta - que julgo se ter chamado Sous le pavé, la plage, lembro-me vagamente de um texto do Tiago Barbosa Ribeiro no qual ele falava da força emanada pelas frases iniciais dos romances. Gosto de imaginar as palavras que o Tiago terá dito, mas como o texto já não se encontra on-line para se defender, abstenho-me de pronunciá-las. Até porque agora, num blogue recente, o André Moura e Cunha decidiu recolher alguns desses exemplares. Lado a lado, Kafka e Virgílio Ferreira, Chico Buarque e Alçada Baptista e talvez quem sabe um dia, Adolfo Bioy Casares:

"Hoje, nesta ilha, aconteceu um milagre. O Verão chegou cedo."
A Invenção de Morel, trad. Miguel Serras Pereira, Antígona, 2003

14.8.06

Postes de Verão (7)

uma gaivota









Quem tem o mar colado à pele sente saudades só de ouvir as gaivotas que rondam as lixeiras. E isto, infelizmente, não é coisa que se resolva com umas férias plastificadas.

10.8.06

Dividir

Os homens podem dividir-se entre os que utilizam o velho artifício retórico de retalhar em dois um conjunto e os que têm escrúpulos em neutralizar a complexidade. Os primeiros - mais expeditos - dividem-se entre os que preferem acentuar o peso da exterioridade na condução do mundo e os que valorizam o acaso e a força dos gestos individuais. Aqueles, os realistas, separam-se entre os que sorriem e os que têm cara de quarta-feira de cinzas e este últimos, por sua vez, entre os que falam de dedo em riste, sempre com três argumentos cuidadosamente colocados em ordem crescente de irrefutabilidade, e os que por vezes têm dúvidas. Enfim, os homens podem dividir-se: mãos para um lado, pernas para o outro, talvez um coração, o estômago, os dentes inseparáveis.

9.8.06

Postes de Verão (6)

Nem tudo é silly na estação quente: o Eduardo diz-nos o regresso a Rurália; o Henrique Fialho relata de forma magistral uma ida ao barbeiro; o Nuno Costa Santos exalta o ressentimento; o Luís Ene descreve-nos a escrita. E a Isabela, descoberta agora mesmo, fala de Natália Correia, de relâmpagos e do Moçambique dos tempos coloniais. É meio-dia e está-se melhor aqui que lá fora.
ADENDA: Cabe ainda referir, com ligeiro atraso, o regresso blogosférico do Ma-Schamba. A colocar na barra lateral quando o calor amainar.

4.8.06

Postes de Verão (5)

Sete vezes nos chamam as coisas fundas antes de lhes cedermos ao encanto. Foi assim com o vinho, foi assim com o agrião, será assim com Lura.

2.8.06

Rebordo nadinha maior

Em História Abreviada da Literatura Portátil, recentemente re-traduzida para português, Enrique Vila-Matas conta como Blaise Cendrais redigiu uma célebre Antologia Negra com base em pedaços de conversa, divagações induzidas por estados febris ou associações livres de palavras ou imagens. Recolha apócrifa de contos africanos, a obra fora saudada pelos seus contemporâneos como «a primeira oportunidade para o grande público conhecer a literatura popular africana». Um deles - O Morto e a Lua - conta-se assim:

«Um ancião vê um morto sobre o qual cai a claridade da lua. Reúne um grande grupo de animais e diz-lhes:
- Qual de vós, valentes, quer encarregar-se de passar o morto ou a lua para o outro lado do rio?
Apresentaram-se duas tartarugas: a primeira, que tem as patas compridas, carrega com a lua e chega sã e salva à margem oposta; a outra, que tem as patas curtas, carrega com o morto e afoga-se.
Por isso a lua morta reaparece todos os dias, e o homem que morre nunca mais volta.»

Estamos na página 63. Nas próximas quarenta, História Abreviada da Literatura Portátil continuará a relatar as viagens, reais ou imaginárias, desse grupo de artistas mais ou menos conhecidos que participaram na estranha e inútil conspiração shandy: Duchamp, Scott Fitzgerald, Garcia Lorca, César Vallejo, Walter Benjamin. E, ancorado no lado de cá, esse último (?) escritor portátil, Vila-Matas, que soube recorrer aos cactos livres do tempo para lhes dar um contexto, uma forma, um enredo. Um rebordo um nadinha maior do que.