27.7.06

Poesia pegajosa

A poesia é feita em espiral. No centro, três ou quatro palavras essenciais. Ditas ou não ditas. Herberto Helder, num conto que abre Os Passos em Volta, fala do estilo como a capacidade de fazer girar a escrita em torno de algumas palavras fundamentais. De preferência substantivos, acrescento. Coisas que se transformem em feixes de energia e tornem o mundo um lugar mais habitável. Adjectivos, só com muito cuidado. Beleza, não. Tristeza, também não. Amor, nunca.

26.7.06

Postes de Verão (4)

25.7.06

Postes de Verão (3)

Cinzel - Blog: um desporto de inverno.

24.7.06

A proximidade das satîs

satîEm Lugares para a História (Teorema, 1999), Arlette Farge examina a «perplexidade e o mal-estar» que sentira ao ler Cendres d'imortalité. La crémation des veuves en Inde, de Catherine Weinberger-Thomas. O texto analisa a tradição indiana das satîs, as viúvas que decidem ser queimadas vivas na pira funerária do seu marido, envoltas em vestes nupciais. Farge constata o estilo «soberbo» da autora e o modo eficaz como canaliza o leitor para as «zonas mistas de maravilhoso e de temor, de perturbação e de revolta». Mas, de imediato, perturba-se com a análise antropológica e psicanalítica que tende a legitimar a cremação das satîs, através de um discurso sedutor que explica e contextualiza o ritual. E questiona-se: «O que é então compreender e o que é o sentido de um rito se não se formular um juízo sobre os seus efeitos? Será forçosamente falacioso ou pouco rigoroso aquele que se sentir revoltado por esta prática, ainda que ela faça sentido(...)?» Por outras palavras: o objecto da investigação pode/deve permanecer impermeável ao sujeito que a leva a cabo? Uma resposta precária consiste em reconhecer a existência de uma série de factores - a linguagem utilizada, o objecto escolhido, as fontes privilegiadas - que não deixam de contribuir na modelação do texto. A par do rigor metodológico e da honestidade intelectual, está o olhar pessoal de quem narra, que pode ser objectivo mas nunca neutral.
Todavia, colocando de parte o caso concreto das satîs, e deslocando-nos do terreno epistemológico, é possível descobrir nos interstícios das questões acima colocadas alguns dilemas interpeladores: O que é estruturante é necessariamente justo? Como equacionar as pressões do meio com as escolhas individuais? De que forma e com que finalidades se acolhem e reinventam particularismos locais, tratados amiúde sob o manto naturalizado da tradição? Como articular os discursos da diferença cultural com o universalismo legado pela modernidade? O passado é um país distante ou uma casa antiga onde ainda se mora? Questões teóricas, enfim. Tão teóricas que se enraízam no pulsar político e social da contemporaneidade. E tão longas, empedradas e plurais que o sol radioso de Julho e a exiguidade auto-imposta dos posts aqui colocados não permitem avançar por aí além.

20.7.06

Se Mao foro

Conta-se que Liu Kiang-Li, participante na Grande Revolução Cultural Proletária Chinesa, abjurou privadamente as suas convicções num fim de tarde chuvoso. Foi em Pequim, num dos momentos mais fervorosos da actuação dos Guardas Vermelhos. Em Assembleia ruidosa, os jovens Guardas decidem obrigar o município da capital a alterar os semáforos. Se o vermelho era a cor da Revolução, então deveria ser perante ele que se avançaria, e não o contrário. Durante três dias, Liu assistiu a acidentes, discussões, atropelamentos. Por fim, uma réstia de senso comum trouxe o retorno das velhas convenções do tráfego rodoviário. Ao mesmo tempo que o verde e o vermelho voltavam às suas significações originais, Liu percebeu que os homens não eram folhas em branco abertas a qualquer inscrição. Guardou segredo, o que o deve ter poupado de alguns aborrecimentos. Haveria de morrer em 1984, vítima de sífilis. Essa doença de quem resiste a recomeços perfeitos.

19.7.06

Mística

árvore depoisRouba-se à vida o tempo e alaga-se o espaço com uma quietude castanha. Condenam-se os impulsos a um exílio irrevogável e deita-se azeite por cima, para que não voltem a redescobrir a claridade. Quando a inoperância dos sentidos se ergue em sentido supremo, adopta-se uma pose de árvore e espera-se pacientemente pelo surgimento das raízes. A seguir virão os esquilos. Mais tarde, os piqueniques.

18.7.06

O detalhe

pêraTodo o detalhe funciona numa dupla direcção: ora como funcionário fiel da estrutura que dele se alimenta, ora como elemento perturbador desse sistema de sentido que o enquadra e domestica. Vejamos: uma jovem está sentada na esplanada. Nela os pormenores organizam-se de tal modo que o contributo de cada um é imprescindível na harmonia observada. Mas para podermos afirmar que tem «personalidade corpórea» falta qualquer coisa. Falta um modo singular de se integrar no mundo e nas coisas que só uma leitura dos particularismos permite decifrar. É necessário que um pormenor se eleve e supere, perturbando a constância das formas e criando uma sensação de desassossego superior em quem observa. A esta perturbação avassaladora dos sentidos, Kant chamou de «sublime». O filósofo pensava em coisas imponentes (uma tempestade marítima, era o exemplo) mas aqui o tamanho é o que menos importa. No fundo, detalhe e sublime equivalem-se, porque só aparentemente o detalhe é pequeno e o sublime, grande. Ambos ultrapassam os códigos normalizados do gosto e do sentido. Uma madeixa corrupta, um olhar falsamente desatento, um modo de responder com o corpo a uma solicitação. Eis o detalhe. E o sublime.

14.7.06

Postes de Verão (2)

A Invenção de Morel: «Um dia destes, quando me perguntarem se sou blogger, corro o risco de responder "sim, mas não praticante"».

Blog d'Apontamentos: «Era tão mínimo que todos o achavam o máximo.»

Lo Infraleve: «Haciendo limpieza general. Aumentando los niveles de oxígeno.»

12.7.06

Post de Verão

Elas erguiam-se azuis e caíam dobradas, largando as dores em espuma. Vistas de fora eram ondas. Mas quem lhes habitava o avesso chamava-as apenas de enjoo.

5.7.06

Dias diabólicos


Dali Atomicus/ Philippe Halsman/Gelatin silver print, 1947
Halsman Family Collection

3.7.06

Agenda

Anarquista nos dias úteis, comunista ao fim-de-semana, social-democrata durante os feriados. Era assim não era?

2.7.06

O anel

«O imperador Carlos Magno, estando já muito velho, apaixonou-se por uma rapariga alemã e começou a atoleimar-se de uma forma penosa. Estava tão arrebatado de paixão pela jovem que descurava os assuntos de Estado e metia-se a ridículo, com o consequente escândalo na corte. De repente, a rapariga faleceu, enchendo os nobres de alívio. Mas a situação limitou-se a piorar: Carlos Magno ordenou que embalsamassem o cadáver e que o levassem para os seus aposentos, não se separando da morta nem por um instante. O arcebiso Turpin, apavorado com o espectáculo macabro, desconfiou que a obsessão do seu senhor tinha uma origem mágica e examinou o corpo da rapariga; debaixo da língua gelada encontrou, com efeito, um anel com uma pedra preciosa. O arcebispo arrancou a jóia do cadáver e, quando o fez, Carlos Magno mandou enterrar a rapariga e perdeu todo o interesse por ela; passou a sentir, no entanto, uma paixão fulminante pelo arcebispo, que possuía agora o anel. Então o aflito e acossado Turpin decidiu atirar a jóia ao lago Constança. E o imperador apaixonou-se pelo lago e passou o resto da sua vida junto à margem.»

História contada por Rosa Montero, em A Louca da Casa (pp.129-130),
que a lera em Seis Propostas Para o Próximo Milénio, de Italo Calvino,
que a encontrara num caderno de apontamentos de Barbey d'Aurevilly,
que a retirara de um livro sobre magia.