30.6.06

Poeira viva

Jacob de GruyterAs palavras não nos pertencem. Andam pelo ar, em círculos, como poeira viva, à espera de uma desatenção luminosa que as capte e ordene. Por vezes pegamo-las e somos capazes de nos surpreender. Outras não. Ou porque tocou o telefone, ou porque apareceu à porta um vendedor da TV Cabo, ou porque surgiu uma inadiável necessidade fisiológica. «Uma pedra olhava o mar em busca do último mamífero marítimo. Era quinta-feira e o mundo continuava ali, longe dos jorros repentinos que parecem ferver a água». O resto escapou, porventura para o lado daí, na esperança de melhor hospedagem. Se sim, força.

29.6.06

Rosa Montero, A Louca da Casa, pp.46-50

lucía zárate














«Os anões têm uma espécie de sexto sentido
que lhes permite reconhecerem-se com um simples olhar.»
Augusto Monterroso

28.6.06

A-dos-Muros

Em Berlim, a memória do muro é visual: um semáforo. Ou melhor, dois, um de cada lado da cortina desaparecida, ora com chapéu, ora sem. Andar é aqui um jogo descuidado que consiste em passar vinte vezes pela fronteira sem tocar no betão. É certo que existem pedaços do antigo limite, umas marcas solenes no chão que servem para recordar uma ferida aparentemente sarada. Mas são eles – estes bonecos com ou sem chapéu – que fazem emergir o que agora permanece à superfície, interferindo na perturbante constância da cidade. Através de uma simples imagem, tudo o que é uno nos aparece como intermitente. O frio, a neve, os cães sem trela e sem medo. As crianças domésticas. A sombra pairando sob as cabeças, como uma presença invasiva na qual se inscreve a fraca luz das coisas. Quando o semáforo dá ordem de passagem, o vendedor de salsichas atravessa a rua armadilhado com uma roulotte em volta do corpo. Vinte e oito quilos, seis horas ao dia, o que pesado em segundos é mais ou menos o peso que falta à atmosfera. Esse peso que um dia Nick Cave levou para dentro de um bar escuro e fumarento enquanto tocava canções para o filme dos anjos.

Berlim, algures em Fevereiro de 2006, meses antes do Mundial.

Publicado outrora numa estrada já finita.

26.6.06

Titiação

Não há texto recente de Maria Filomena Mónica que não fale de «titilação sexual». É a «titilação sexual» provocada pelas séries televisivas juvenis, pela música dos D'ZRT, pela profusão massiva de obras literárias «pseudo-eruditas». Não é «tiritação sexual», um frémito qualquer a percorrer as peles. Nem «tilintação sexual», o abano sugestivo das partes em jogo. É mesmo «titilação»: estremecimento, prurido leve, cócegas. Ou será que queria dizer titiação?

Qual papel?

O papel. Do António Tavares Lopes.

21.6.06

Chamava-se B. (acho)













Como não dançava chulas nem zarzuelas, alimentava a sua paixão a cartas e postais. Embora nunca as tenha enviado. As fotos quentes são arados no corpo dos homens. Mas geralmente não trazem morada no verso. No fundo, as mulheres com asas continuavam a ser-lhe um terceiro sexo.

19.6.06

Revista Minguante (ou o elogio do mínimo)

Acaba de sair o nº0 da revista Minguante. Composta por "micro-narrativas", a publicação terá periodicidade bimestral e formato on-line. Os editores convidam todos os interessados a participar no próximo número, cujo tema será O banal.

Revista Minguante, nº0. Corpo editorial: Luís Ene, Henrique Manuel Fialho Bento e Fernando Gomes. Grafismo: Margarida Delgado. Textos de: Fernando Gomes, Henrique Manuel Fialho Bento, Immaculada Luna, João Ventura, José Carlos Barros, José Eduardo Lopes, Luís Ene, Márcia Maia, Maria Helena, Miguel Cardina, Nelson Moraes, Nuno Moura, Paulo Kellerman, Rafael Miranda, Rui Costa, Rui Manuel Amaral e Sara Monteiro.

15.6.06

Assobio

Sempre que me falam daqueles modos quotidianos de exercer o poder, de erguer tracejados sobre o que é legítimo e o que é interdito, lembro-me de um conto do Mário Dionísio. Chama-se Assobiando à Vontade. A acção desenrola-se num eléctrico apinhado de gente à hora de ponta. A dada altura, surge uma interferência na moleza introspectiva dos corpos: um homem começa a assobiar. A multidão anónima entreolha-se - cúmplice, silenciosa, unida na mesma censura. Ninguém se deve fazer ver assim, tão subversivamente, pensam. Mas o homem continua enleado na sua abstracção construída. Quando o eléctrico pára, só ele sai. O assobio, esse, permanece algures, no escárnio arrumadinho dos outros. É o momento, diz-nos Dionísio, em que tudo volta «pesadamente, a encher-se de silêncio e dignidade». Até que alguém venha de novo romper os cristais baços da sisudez.

Publicado outrora numa estrada já finita.

13.6.06

A asma das garrafas



















São onze da manhã e tudo flui, como o rio de Heraclito. Como o vinho que bamboleia para cair mais adiante sem que ninguém o saiba ainda. Quando se olha o presente congelado acredita-se que o futuro é ilusório. Felizmente, nada se perdeu: o riso havia já retirado a asma das garrafas.

Foto: Cartier-Bresson

Achado

«Num mar de cabelos os piolhos são como ilhas»

Ibn al Raschid (1348-1393)

Respigado daqui.

12.6.06

Imortal

Aquele que apara as próprias pontas até se tornar num adjectivo.

9.6.06

Da natureza dos blogs

Limite ontológico: chingar o blogger quando está «down for maintenance».

8.6.06

Nota pessoal

molho marado






Nunca ler em voz alta os ingredientes daquele molho húngaro. Nunca.

Passeio pela blogosfera

6.6.06

Princípio da orfandade

Das histórias que faltam contar, abundam as amorais. São estas, enfim, as nossas histórias. Novelos emaranhados que não pertencem nem a deus nem ao diabo, porque pertencer a deus ou ao diabo é ter princípio-meio-e-fim, coisa que as histórias amorais não têm nem podem ter. Por isso não são contadas. No essencial, nenhuma história amoral pode sequer começar, porque revelar um início é sugerir à chegada uma “moral da história”. E a amoralidade desdiz a moral - e o seu inverso. Donde, não temos histórias propriamente nossas. O bem e o mal sim, esses têm-nas. Aos molhos. Nós continuamos órfãos.

Publicado outrora numa estrada já finita.

4.6.06

Um pequeno conto de Tonino Guerra

Os três pratos

Tonino GuerraQuando o camponês descobriu que a sua mulher o traiu, obrigou-a a preparar a mesa para três. E durante o resto da vida comeram contemplando, diante deles, o terceiro prato vazio.

Tonino Guerra, Histórias para uma noite de calmaria. Tradução de Mário Rui de Oliveira.
Lisboa, Assírio & Alvim, 2002.

3.6.06

Portugal, 2006: as questões fracturantes

Um dia será Dia do Cão. Hoje, Cavaco veta.

2.6.06

Tirar a carapaça

Recuperou a fala quando conseguiu ler às avessas a "Metamorfose" de Kafka. Chamavam-lhe Gregor Samsa e ele nunca tinha percebido porquê.