31.5.06

O mundo antes de O Código Da Vinci (3)

A (outra) nêspera

nêsperaNão era uma nêspera qualquer. Era a outra, a que não consta do poema do Mário-Henrique Leiria, a que fugiu da boca gretada da velha, a que não esperou para ver o que acontecia e se escondeu, amarela e reivindicativa, por detrás da botija de gás. A que morreu, negra e feliz, na boca do tempo que a comeu.

29.5.06

DNA histórico

la ragazzaManifestei em tempos a minha expectativa pela abertura da FNAC em Coimbra. Logo na primeira visita, partilhei a desilusão do Bruno: o espaço aproximava-se tristemente de uma Worten com livros ao fundo. Escrevi um post raivoso que nunca editei, respirei fundo, voltei para uma segunda oportunidade. À saída, num daqueles encontros inadvertidos que a Amazon não nos permite, tropeço na recentíssima autobiografia de Rossana Rossanda - «La ragazza del secolo scorso» [A rapariga do século passado]. Na página 221, Rossana Rossanda, comunista heterodoxa, feminista, mito grisalho da esquerda europeia das décadas de sessenta e setenta, diz-nos mais ou menos isto:

[Nos inícios dos anos sessenta] descobri que não podia fugir do feminino. Não no terreno dos sentimentos, onde todos nós nos movemos, carregados de desejos e frustrações, mas no terreno do racional e do público, no qual me parecia não haver diferença entre homem e mulher. Na verdade, não era assim. Aquele impulso para fugir diante da decisão de fazer ou não a manifestação proibida foi um aviso, que não me impediu de fazer escolhas drásticas, mas que se repete de cada vez que não estou em jogo apenas eu própria. Sinto-me dividida, hesitante, com vontade de me retirar. Esta coisa de decidir pelos outros não acredito que aconteça a um homem. Desde então, de cada vez que tenho de fazer escolhas fortes na esfera pública, sinto este apelo para dar um passo atrás. E não me parece que seja uma virtude pacifista, mas o reflexo de quem esteve durante séculos fora dos caminhos da história.

Tinha começado a década na qual o privado se politizou.

*Infelizmente, o livro termina no exacto momento em que queria vê-lo recomeçar: em 1969, ano da criação do grupo «Il Manifesto», resultado de uma cisão no interior do Partido Comunista Italiano. Talvez seja este o primeiro capítulo de um hipotético segundo volume.

27.5.06

Corda bamba

Hoje comprei um livro que já tinha. O esquecimento é o lugar das felicidades momentâneas.

25.5.06

Tirania

O tirano tornou-se tirano depois de lhe tirarem o tiramisú.

23.5.06

Sindicalismo

Essa coisa da morte foi muito mal negociada.

21.5.06

O mundo antes de O Código Da Vinci (2)

O mundo antes de O Código Da Vinci

19.5.06

Vaga

cidade vagaEsta é uma cidade como outra qualquer. Cidade que se ergue sob finos andares, como Bauci, habitada por gente tímida que admira as pedras, as folhas e as formigas. Com tabernas e janelas iluminadas onde mulheres se penteiam no rés-do-chão das casas, como Despina vista de terra. Cidade aquática, como Esmeraldina, na qual as ruas se cruzam e sobrepõem e a linha mais curta entre dois pontos é um ziguezague. Cidade sonhada, como Isidora. Cidade vaga, como Armilla. Infelizmente, aqui não mora o génio de Calvino. Ora bolas.

18.5.06

Aniversário

O terceiro do Almocreve das Petas
[com a Filarmónica Fraude a abrilhantar a festa.]

16.5.06

Cio

Escrever não é tudo. Há ainda o mundo e as rugas do mundo, o cheiro a peixe seco, os becos quase sempre povoados de lixo. Quando chegava a casa, espreguiçava-se lentamente e punha-se a pensar nisto. Pensava muito. Subia ao sofá e olhava lá para fora, nostálgico do que nunca fora. Até que adormecia, à espera de um novo cio que o libertasse dos desejos humanos.

15.5.06

Desarrumar o vivo

Hoje passei por lá. Muito pó, uma aranha viva, alguns cadernos com frases ridículas nas baínhas. Só não encontrei a velha polaroid que procurava. Se calhar nunca existiu.

12.5.06

A semana passada no cidade do cotão

ponte






Esta semana, em Coimbra, estudantes a festejar a "Queima" e peregrinos a caminho de Fátima, trocaram passos nas mesmas calçadas. Uns efusivos, outros compenetrados. Uns de preto, outros de verde fluorescente. Ambos respirando cotão. Ambos habitados pela mesma fé no sacríficio. Tão próximos ou tão distantes quanto a dor e o prazer.

10.5.06

Sílabas ilícitas

irmãsNós, portugueses, que guardamos rancores e alimentamos maldades, desconhecemos a habilidade de estabelecer relações irónicas com o transcendente. Nenhum dos intelectuais que tentou elaborar análises sócio-psicanalíticas de Portugal – de João Martins Pereira a Eduardo Lourenço, de António José Forte a José Gil – ousou questionar esta nossa incapacidade para blasfemar. Tirando algumas anedotas, em geral deslavadas, e os guiões desse cavalheiro da badalhoquice que foi João César Monteiro, somos desprovidos de fulgor iconoclasta. Os italianos – os romanos, para ser mais preciso – dizem «managgia la Madonna da quando faceva bocchini a Betlemme» e outras coisas deste calibre. Os espanhóis cagam «en las tetas de la virgen para que el niño mame mierda». Nós ofendemo-nos na horizontal, mantendo intocável a arquitectura do além, como se houvesse uma linha intransponível entre o sagrado e o profano. Abrimos a boca e sai-nos um pequenino Diácono Remédios a ciciar qualquer coisa em diminutivo: exorcizai z…z…mas com respeitinho, hum. Pobre país, o nosso.

9.5.06

Inconfessável

multibancoAcontece sempre que me dirijo a uma caixa multibanco. Enquanto poiso as mãos no écran cromado, imagino-me a poucos centímetros da cabeça de um qualquer homenzinho que, agachado, passa ali os dias a dar dinheiro e a preencher talões. Não é assim, eu sei e é pena. Porque tinha duas grandes vantagens: a primeira é que podíamos ter acesso a talões personalizados, com frases bonitas e edificantes como aquelas que se encontram no citador. A segunda vantagem é mais complicada e tem a ver com a distância que vai entre cada um de nós e o perdão infinito. Deixemo-la, pois, inconfessável.

7.5.06

Nos 150 anos do nascimento de Freud

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«A vida é uma doença mortal,
transmitida sexualmente»
Woody Allen

Combray quase

Combray futuroÀ memória comum, voluntária, consciente, chamava Proust a «memória da inteligência e dos olhos». A ela se sobrepunha uma outra, feita recordação e esquecimento, cuja irrupção não dependeria da vontade do sujeito mas da relação circunstancial que este poderia ser levado a desenvolver com determinados objectos. Um cheiro, um sabor, uma visão insuspeita, uma madeleine embebida numa taça de chá, despertavam a «memória involuntária», modo inadvertido de trazer de volta sensações antigas sem as confundir com o momento que as havia despoletado. Um «fragmento de tempo em estado puro» apaziguava melancolia e felicidade, evocação e vivência, passado inteiro e presente resgatado. Amanhã de manhã nada disto acontecerá. Mas poderia acontecer.

6.5.06

Lugar Comum

4.5.06

Contradição

Bêbedos clarividentes, místicos sem deus, niilistas por exigência ética. Enquanto houver contradição haverá virtude.

2.5.06

Prova de amor

Vai lá alimentar o tomagoshi!

1.5.06

Maduro Maio