28.4.06

A materialidade do imaginário

a mulher de porto pimAs letras têm olhos e é por isso que ocasionalmente devíamos visitar os textos que nos falam dos lugares onde estivemos. Não para recordar. Mas para ver melhor. Em O Meu Chapéu Cinzento, Olivier Rolin diz-nos o seguinte: «Só vemos realmente uma coisa quando encontrámos as palavras para a dizer. As palavras, as palavras difíceis que é preciso ir buscar muito longe, por vezes às profundezas da língua, são aquelas que suscitam e fortalecem a imagem de uma coisa». Nem mais. A língua a fortalecer a imagem de uma coisa. As coisas, habitualmente pensadas na sua relação com a materialidade, a serem instituídas por meio do reconhecimento. E o imaginário, esse domínio vilipendiado como inexistente, a adquirir uma realidade maior do que as pedras da calçada. Do que o sol escaldante nas costas. Do que a mulher que não vi em Porto Pim por desconhecer o livro do Tabucchi.

27.4.06

Playmate

prendelo







Maria Antonietta Beluzzi em Amarcord (1973), de Federico Fellini.

26.4.06

Vítima da memória

Nem sempre é evidente o nome do rosto. Encontramos alguém na rua, lemos no sorriso cúmplice os lugares passados, mas uma névoa, uma sombria névoa, traça-nos a língua. A conversa é feita na fronteira do sobressalto, a um passo do medo dos racionalistas: desconhecer o conhecido. Por fim, afastados, sentimos o alívio de quem soube encobrir a fragilidade. Nos minutos seguintes, porém, seremos invadidos pelo remorso estúpido e dilacerante das vítimas.

23.4.06

Do PREC, hoje

PRECManhã feliz: acordo com um café reforçado e com o surpreendente prefácio de Gonçalo M.Tavares a "Os Dias Loucos do PREC", de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira. Fala da fisionomia do tempo, da ideia de revolução, do acto de perceber e do acto de julgar. E, ainda, do perigo, do lugar da excitação na narrativa historiográfica, da musculatura específica dos slogans. Corram.

22.4.06

Porque hoje é Sábado

Ele acordou e viu que o dia não tinha amanhecido. Calçou os chinelos, comeu a sua dose matinal de cereais, vestiu-se sem tomar banho. Abriu a porta e deixou entrar o fumo negro que lá fora se acumulava. «A noite desfez-se e inundou tudo», pensou. Voltou para a cama e esperou pacientemente que o fim do mundo passasse.

21.4.06

O coleccionador

Ele sabe que a paixão é o acto de recolher os cactos que o vento disperou, o caminho que vai da multidão informe à sublimação da raridade.

Estado crítico

ícaroMário é crítico literário. Devora livros. A semana passada adormeceu com um sobre o ventre. Quando acordou, os ácaros tinham-lhe comido o estômago. Agora só bebe literatura light. De palhinha.

20.4.06

Coimbra e os livros

Abriu hoje a Feira do Livro de Coimbra. É um grande cemitério branco em forma de cruz. Cinco minutos depois de entrarmos, percebemo-nos dentro de um dilema: ou olhamos os livros ou garantimos o norte. Olhamos os livros. Uma vez, duas vezes, muitas vezes. Perdemo-nos, não para encontrar o acaso mas para encalhar no repetido. A única solução é decorar as coordenadas das poças de águas. E esquecer que se está dentro de um shaker.

ADENDA AO POST: Dias atrás, JPP comentava o estranho facto de uma cidade que se gosta de considerar "capital do saber" ter tão pobres livrarias. Dia 28 de Abril abre a FNAC. Até lá, JPP tem razão.

NOVA ADENDA: O Eduardo acrescenta a sua expectativa, argumentada e pouco optimista, sobre a abertura da FNAC em Coimbra.

Penitência

O sonho era sempre o mesmo. Psst, ouve isto, dizia-lhe a rapariga de ombros descobertos. Quanto ela se sentava ao piano para lhe mostrar a melodia, uma sineta irritante retirava-o do torpor melado. No seminário, os horários são para se cumprir.

19.4.06

Flanar

olho vivoNos seus estudos sobre Baudelaire, Walter Benjamin mostrou como o ambiente parisiense do século XIX deu origem ao flâneur, figura paradigmática de uma modernidade nascente que tinha nas ruas um palco privilegiado de representação. Vagueando nelas, o flâneur alimentava-se daquilo que lhe atingia o olhar, com o mesmo interesse desinteressado que caracteriza a contemplação erótica, essa capacidade de apelar ao corpo mantendo-o imediatamente aquém do toque. Hoje, a sociedade de controlo empurrou a velha arte de deambular para aquelas plataformas circulatórias a que Marc Augé chamou de «não-lugares». Metros, aeroportos, centros comerciais. Fronteiras que prometem a certeza de um lugar outro. Estranhos vidros duplicados onde a multidão circula num misto de entusiasmo e melancolia, indiferente à sombra atenta que a observa.

18.4.06

Tud dret

Le violin du Cap VertSe o mundo fosse um lugar menos chuvoso, seria outra a música em redor. Travadinha estaria nos tops. Le violin du Cap Vert teria sido editado pela Sony ou pela Virgin e não pela Musique du Monde. Stancha, exemplo de uma rabeca a rir, tocaria nos telemóveis dos adolescentes. O som arrastado e envolvente de Blimundo venderia mais perfumes do que o olhar lânguido da Kate Moss. Assim não. Só os privilegiados o conhecem e o mundo é mais pobre sem o saber. Tenho pena. Eu, que sou democrata, se tivesse alguns temas em mp3 colocava-os aqui, na esperança de ser preso.

17.4.06

Sombra somos

sombraO mais desmentido dos dualismos cartesianos - a separação entre alma e corpo, res cogitans e res extensa - tem, no seu avesso, um sonho formulado para a humanidade: a capacidade de suspender o corpo do quotidiano. A blogosfera é a (ilusão da) sua possibilidade.

Ponto de vista

sossego
As arrumações podem ser momentos de profunda desordem. Basta pormo-nos na pele das aranhas e dos livros. Pensamos que estamos a limpar as parcelas, a empilhar o disperso, a eliminar o acessório, quando o que fazemos é apenas reconstruir um espaço de pobreza.

Inferno

O ímpeto das abelhas, a vontade dos pássaros, o riso das máquinas e das laranjas. Coisas bucólicas e rasteiras, lidas à tarde, que é nos livros imperfeitos o tempo do declínio. Uma água com gás ajuda a digerir. À volta, as palavras, sempre as palavras.

16.4.06

A inveja do criador

cinzas
Sabe-se que Flaubert manifestou um dia a vontade de escrever uma obra sem assunto. Uma obra que, desligada do real, fosse a confirmação da suprema e desdenhosa independência da arte relativamente à vida. Segundo os estudiosos do romance moderno, esta auto-suficiência da arte não significaria a legitimação do nonsense mas, pelo contrário, uma afirmação inequívoca da possibilidade do sentido. De um sentido que, «neste mundo abandonado pelos deuses», como disse Lukács, apenas teria revelação no interior da obra de arte. Numa destas madrugadas televisivas, George Steiner contribuiu para esclarecer esta ideia. Lembrou uma frase de Flaubert, enquanto esperava que um cancro no estômago lhe retirasse os últimos nacos de vida: «Eu aqui a morrer como um cão e a puta da Madame Bovary a ter vida eterna». Ofuscado pela dor, o romancista voltou a exprimir a primazia do escrito relativamente ao vivido. Ou, o que é ainda mais patético, a triste incapacidade dos austeros em pensar o sentido na sua relação com a finitude.

A cidade vaga

Bati. A senha, gritaram. Remexi os bolsos, o bordo das meias, o resto. Nada. Empurrei a porta entreaberta. Lá dentro, o eco.