11.9.06

Da morte da epistolografia

mail deliveryA epistolografia morreu. A revolução digital em curso e a evaporação de um certo peso do mundo - que nos fazia dizer coisas graves e afectadas sem que parecem sê-lo - traçaram-lhe a cova. Hoje já ninguém escreve cartas. Não falo, como é óbvio, dos postais de férias que enviamos para fazer inveja aos amigos, nem dos arrufos sentimentais do último par de amantes momentaneamente apartado. Falo daquelas cartas que circulavam no meio das outras mas que não eram propriamente cartas, eram Cartas (como o título do volume a que mais tarde dariam lugar). Falo desses mini-ensaios que os intelectuais do antigamente trocavam entre si, ensaiando sínteses entre a hermenêutica do mundo e as solicitações do quotidiano. Desses sussurros cúmplices que muitas vezes se sabiam objectos prévios de voyeurismo e que por isso eram escritos como se uma governanta maliciosa lhes estivesse prestes a deitar o olho. A epistolografia morreu, pois então, mas talvez ainda nos falte a edição dos e-mails trocados entre o venerando x e o incontornável y - com direito a prefácio, capa dura e recensões na blogosfera - para nos cobrirmos de luto definitivo.