7.9.06

Assim a luz azul, a missa

Paul Klee, Blue Night, 1937No último Vila-Matas (Da Cidade Nervosa, Campo das Letras), encontramos uma série de crónicas publicadas desde 1996 na edição catalã do El País. Quarenta e quatro textos que conseguem ser refinados mantendo ao mesmo tempo a ironia, a inteligência e a concisão. A luminosidade. Exemplar a este respeito é a crónica em que se fala do palíndromo, jogo linguístico que consiste em compor frases que se leiam igualmente da frente para trás, da direita para a esquerda. «Así me trae Artemisa», «A ser gitana, tigresa», «Salta Lenin el Atlas». Aproveitando a passagem do escritor Augusto Monterroso por Barcelona, e sabendo da sua paixão pelo exercício, Vila-Matas leva-o a percorrer a rota nocturna da cidade, invadida à época pela moda de compor frases que os espelhos não pervertem. Diante deste computador que me queima os olhos, imagino Barcelona como uma espécie de grande estaleiro medieval, onde monges afadigados se dedicam a colocar as palavras no seu lugar primordial, ao mesmo tempo que coçam a cabeça e bebem pequenos goles de Rioja – por lá há esse hábito saudável de se beber vinho tinto nos bares. E bebem, bebem, bebem, até começarem a falar para dentro, para os tampos de mármore, para o daimon de papel que cada um traz debaixo da língua. Cá está: assim a luz azul, a missa.