20.9.06

Against all Moss

Arquitectada nos gabinetes da alta-costura e popularizada junto das «massas femininas» através da publicidade, das telenovelas e das revistas «cor-de-rosa», a ideia contemporânea de beleza feminina tem servido para alimentar toda uma indústria de produtos e acessórios estéticos que apenas se pôde constituir a partir do momento em que a mulher se tornou numa potencial consumidora. Até lá, a beleza podia fingir o raro mas não implicava um trabalho constante e interminável sobre o próprio corpo. A partir do momento em que a mulher dispôs de poder de compra, ganhou direito a uma imagem inatingível de si própria.
Num qualquer momento da curva recente do tempo, porém, a mulher bonita deixou de ser a mulher normal mas singular, para passar a definir-se apenas pelas marcas da excepcionalidade, que hoje tendem a aparentar-se perigosamente com os limites da exaustão e da anemia. As indústrias do belo sabem que a potenciação do consumo passa por difundir simulacros de harmonia que são o exacto oposto daquilo que é o comum. É assim que, na época do desaparecimento da ideia de fome, na época em que a «má alimentação» não emagrece mas engorda, a moda simula a carestia. As modelos de hoje são cabides púberes e desconjuntados, seres próximos da androginia que concentram um baixíssimo volume de massa adiposa nas zonas onde em geral ela devia estar.
Agora chegam as boas notícias: em Espanha iniciou-se o «combate à anorexia». Com alguma dose de sorte e muito bom-senso ainda veremos a luz vermelha da passerelle a inclinar-se para iluminar as ruas movimentadas das cidades. Em busca das filhas ilegítimas da Anita Ekberg, das irmãs bastardas da Laetitia Casta, da prima em terceiro grau da Mónica Bellucci. Quem sabe, um dia.