2.8.06

Rebordo nadinha maior

Em História Abreviada da Literatura Portátil, recentemente re-traduzida para português, Enrique Vila-Matas conta como Blaise Cendrais redigiu uma célebre Antologia Negra com base em pedaços de conversa, divagações induzidas por estados febris ou associações livres de palavras ou imagens. Recolha apócrifa de contos africanos, a obra fora saudada pelos seus contemporâneos como «a primeira oportunidade para o grande público conhecer a literatura popular africana». Um deles - O Morto e a Lua - conta-se assim:

«Um ancião vê um morto sobre o qual cai a claridade da lua. Reúne um grande grupo de animais e diz-lhes:
- Qual de vós, valentes, quer encarregar-se de passar o morto ou a lua para o outro lado do rio?
Apresentaram-se duas tartarugas: a primeira, que tem as patas compridas, carrega com a lua e chega sã e salva à margem oposta; a outra, que tem as patas curtas, carrega com o morto e afoga-se.
Por isso a lua morta reaparece todos os dias, e o homem que morre nunca mais volta.»

Estamos na página 63. Nas próximas quarenta, História Abreviada da Literatura Portátil continuará a relatar as viagens, reais ou imaginárias, desse grupo de artistas mais ou menos conhecidos que participaram na estranha e inútil conspiração shandy: Duchamp, Scott Fitzgerald, Garcia Lorca, César Vallejo, Walter Benjamin. E, ancorado no lado de cá, esse último (?) escritor portátil, Vila-Matas, que soube recorrer aos cactos livres do tempo para lhes dar um contexto, uma forma, um enredo. Um rebordo um nadinha maior do que.