20.8.06

O segredo de Günter Grass

1. À medida de cada um, todos temos segredos. Grandes, pequenos, felizes, infelizes. Günter Grass tinha um segredo e resolveu revelá-lo: pertencera em 1945 à tropa de elite nazi. O acto, em si mesmo, não é surpreendente. Milhares e milhares de alemães colaboraram com o regime, uma boa parte deles jovens como Günter Grass, à época um rapaz de 17 anos. Mas, se o passado do escritor é comum a muitos dos rapazes da sua geração, a revelação tem um impacto particular se se tiver em conta que a sua voz foi uma espécie de instância moral anti-nazi no período do pós-guerra. Se a obra não se compromete com esta declaração tardia, também é verdade que a partir de agora não é possível lê-la ignorando este facto. Não é o conteúdo do segredo, nem a sua existência que perturbam. Mas a altura em que ocorre a revelação: sessenta e um anos depois, a algumas semanas do lançamento da sua autobiografia, previsto para Setembro mas entretanto antecipado. As livrarias alemãs esperam já uma segunda edição de Descascando a Cebola. Não há como evitar: cheira a marketing.

2. De qualquer modo, parece-me de atender a uma outra questão que o «caso Grass» evidencia e que se poderia formular mais ou menos assim: o que nos diz um «segredo» deste tipo sobre o passado ao qual faz referência? Para além de revelar uma certa dificuldade em enquadrar a vivência de quem então seguiu pelo caminho mais acessível, quantas vezes obrigado pela família e pelo Estado, as leituras efectuadas a casos como este - algumas delas, pelo menos - tendem a acentuar a demonização de um tempo e de um contexto, a consideração de um quotidiano concreto como «experiência de pecado», o que acaba por promover uma visão paradoxal da história. Essencializadas como uma espécie de mal absoluto, as ditaduras vêem-se assim beneficiárias de uma espécie de indulto tácito, já que se entende a sua vigência como resultado de uma falta momentânea de razão, de uma circunstância ultrapassada, de uma inferno irrepetível. E entendê-lo assim talvez não nos leve muito para além do espanto e do tremor.