20.7.06

Se Mao foro

Conta-se que Liu Kiang-Li, participante na Grande Revolução Cultural Proletária Chinesa, abjurou privadamente as suas convicções num fim de tarde chuvoso. Foi em Pequim, num dos momentos mais fervorosos da actuação dos Guardas Vermelhos. Em Assembleia ruidosa, os jovens Guardas decidem obrigar o município da capital a alterar os semáforos. Se o vermelho era a cor da Revolução, então deveria ser perante ele que se avançaria, e não o contrário. Durante três dias, Liu assistiu a acidentes, discussões, atropelamentos. Por fim, uma réstia de senso comum trouxe o retorno das velhas convenções do tráfego rodoviário. Ao mesmo tempo que o verde e o vermelho voltavam às suas significações originais, Liu percebeu que os homens não eram folhas em branco abertas a qualquer inscrição. Guardou segredo, o que o deve ter poupado de alguns aborrecimentos. Haveria de morrer em 1984, vítima de sífilis. Essa doença de quem resiste a recomeços perfeitos.