24.7.06

A proximidade das satîs

satîEm Lugares para a História (Teorema, 1999), Arlette Farge examina a «perplexidade e o mal-estar» que sentira ao ler Cendres d'imortalité. La crémation des veuves en Inde, de Catherine Weinberger-Thomas. O texto analisa a tradição indiana das satîs, as viúvas que decidem ser queimadas vivas na pira funerária do seu marido, envoltas em vestes nupciais. Farge constata o estilo «soberbo» da autora e o modo eficaz como canaliza o leitor para as «zonas mistas de maravilhoso e de temor, de perturbação e de revolta». Mas, de imediato, perturba-se com a análise antropológica e psicanalítica que tende a legitimar a cremação das satîs, através de um discurso sedutor que explica e contextualiza o ritual. E questiona-se: «O que é então compreender e o que é o sentido de um rito se não se formular um juízo sobre os seus efeitos? Será forçosamente falacioso ou pouco rigoroso aquele que se sentir revoltado por esta prática, ainda que ela faça sentido(...)?» Por outras palavras: o objecto da investigação pode/deve permanecer impermeável ao sujeito que a leva a cabo? Uma resposta precária consiste em reconhecer a existência de uma série de factores - a linguagem utilizada, o objecto escolhido, as fontes privilegiadas - que não deixam de contribuir na modelação do texto. A par do rigor metodológico e da honestidade intelectual, está o olhar pessoal de quem narra, que pode ser objectivo mas nunca neutral.
Todavia, colocando de parte o caso concreto das satîs, e deslocando-nos do terreno epistemológico, é possível descobrir nos interstícios das questões acima colocadas alguns dilemas interpeladores: O que é estruturante é necessariamente justo? Como equacionar as pressões do meio com as escolhas individuais? De que forma e com que finalidades se acolhem e reinventam particularismos locais, tratados amiúde sob o manto naturalizado da tradição? Como articular os discursos da diferença cultural com o universalismo legado pela modernidade? O passado é um país distante ou uma casa antiga onde ainda se mora? Questões teóricas, enfim. Tão teóricas que se enraízam no pulsar político e social da contemporaneidade. E tão longas, empedradas e plurais que o sol radioso de Julho e a exiguidade auto-imposta dos posts aqui colocados não permitem avançar por aí além.