18.7.06

O detalhe

pêraTodo o detalhe funciona numa dupla direcção: ora como funcionário fiel da estrutura que dele se alimenta, ora como elemento perturbador desse sistema de sentido que o enquadra e domestica. Vejamos: uma jovem está sentada na esplanada. Nela os pormenores organizam-se de tal modo que o contributo de cada um é imprescindível na harmonia observada. Mas para podermos afirmar que tem «personalidade corpórea» falta qualquer coisa. Falta um modo singular de se integrar no mundo e nas coisas que só uma leitura dos particularismos permite decifrar. É necessário que um pormenor se eleve e supere, perturbando a constância das formas e criando uma sensação de desassossego superior em quem observa. A esta perturbação avassaladora dos sentidos, Kant chamou de «sublime». O filósofo pensava em coisas imponentes (uma tempestade marítima, era o exemplo) mas aqui o tamanho é o que menos importa. No fundo, detalhe e sublime equivalem-se, porque só aparentemente o detalhe é pequeno e o sublime, grande. Ambos ultrapassam os códigos normalizados do gosto e do sentido. Uma madeixa corrupta, um olhar falsamente desatento, um modo de responder com o corpo a uma solicitação. Eis o detalhe. E o sublime.