2.7.06

O anel

«O imperador Carlos Magno, estando já muito velho, apaixonou-se por uma rapariga alemã e começou a atoleimar-se de uma forma penosa. Estava tão arrebatado de paixão pela jovem que descurava os assuntos de Estado e metia-se a ridículo, com o consequente escândalo na corte. De repente, a rapariga faleceu, enchendo os nobres de alívio. Mas a situação limitou-se a piorar: Carlos Magno ordenou que embalsamassem o cadáver e que o levassem para os seus aposentos, não se separando da morta nem por um instante. O arcebiso Turpin, apavorado com o espectáculo macabro, desconfiou que a obsessão do seu senhor tinha uma origem mágica e examinou o corpo da rapariga; debaixo da língua gelada encontrou, com efeito, um anel com uma pedra preciosa. O arcebispo arrancou a jóia do cadáver e, quando o fez, Carlos Magno mandou enterrar a rapariga e perdeu todo o interesse por ela; passou a sentir, no entanto, uma paixão fulminante pelo arcebispo, que possuía agora o anel. Então o aflito e acossado Turpin decidiu atirar a jóia ao lago Constança. E o imperador apaixonou-se pelo lago e passou o resto da sua vida junto à margem.»

História contada por Rosa Montero, em A Louca da Casa (pp.129-130),
que a lera em Seis Propostas Para o Próximo Milénio, de Italo Calvino,
que a encontrara num caderno de apontamentos de Barbey d'Aurevilly,
que a retirara de um livro sobre magia.