28.6.06

A-dos-Muros

Em Berlim, a memória do muro é visual: um semáforo. Ou melhor, dois, um de cada lado da cortina desaparecida, ora com chapéu, ora sem. Andar é aqui um jogo descuidado que consiste em passar vinte vezes pela fronteira sem tocar no betão. É certo que existem pedaços do antigo limite, umas marcas solenes no chão que servem para recordar uma ferida aparentemente sarada. Mas são eles – estes bonecos com ou sem chapéu – que fazem emergir o que agora permanece à superfície, interferindo na perturbante constância da cidade. Através de uma simples imagem, tudo o que é uno nos aparece como intermitente. O frio, a neve, os cães sem trela e sem medo. As crianças domésticas. A sombra pairando sob as cabeças, como uma presença invasiva na qual se inscreve a fraca luz das coisas. Quando o semáforo dá ordem de passagem, o vendedor de salsichas atravessa a rua armadilhado com uma roulotte em volta do corpo. Vinte e oito quilos, seis horas ao dia, o que pesado em segundos é mais ou menos o peso que falta à atmosfera. Esse peso que um dia Nick Cave levou para dentro de um bar escuro e fumarento enquanto tocava canções para o filme dos anjos.

Berlim, algures em Fevereiro de 2006, meses antes do Mundial.

Publicado outrora numa estrada já finita.