10.5.06

Sílabas ilícitas

irmãsNós, portugueses, que guardamos rancores e alimentamos maldades, desconhecemos a habilidade de estabelecer relações irónicas com o transcendente. Nenhum dos intelectuais que tentou elaborar análises sócio-psicanalíticas de Portugal – de João Martins Pereira a Eduardo Lourenço, de António José Forte a José Gil – ousou questionar esta nossa incapacidade para blasfemar. Tirando algumas anedotas, em geral deslavadas, e os guiões desse cavalheiro da badalhoquice que foi João César Monteiro, somos desprovidos de fulgor iconoclasta. Os italianos – os romanos, para ser mais preciso – dizem «managgia la Madonna da quando faceva bocchini a Betlemme» e outras coisas deste calibre. Os espanhóis cagam «en las tetas de la virgen para que el niño mame mierda». Nós ofendemo-nos na horizontal, mantendo intocável a arquitectura do além, como se houvesse uma linha intransponível entre o sagrado e o profano. Abrimos a boca e sai-nos um pequenino Diácono Remédios a ciciar qualquer coisa em diminutivo: exorcizai z…z…mas com respeitinho, hum. Pobre país, o nosso.