29.5.06

DNA histórico

la ragazzaManifestei em tempos a minha expectativa pela abertura da FNAC em Coimbra. Logo na primeira visita, partilhei a desilusão do Bruno: o espaço aproximava-se tristemente de uma Worten com livros ao fundo. Escrevi um post raivoso que nunca editei, respirei fundo, voltei para uma segunda oportunidade. À saída, num daqueles encontros inadvertidos que a Amazon não nos permite, tropeço na recentíssima autobiografia de Rossana Rossanda - «La ragazza del secolo scorso» [A rapariga do século passado]. Na página 221, Rossana Rossanda, comunista heterodoxa, feminista, mito grisalho da esquerda europeia das décadas de sessenta e setenta, diz-nos mais ou menos isto:

[Nos inícios dos anos sessenta] descobri que não podia fugir do feminino. Não no terreno dos sentimentos, onde todos nós nos movemos, carregados de desejos e frustrações, mas no terreno do racional e do público, no qual me parecia não haver diferença entre homem e mulher. Na verdade, não era assim. Aquele impulso para fugir diante da decisão de fazer ou não a manifestação proibida foi um aviso, que não me impediu de fazer escolhas drásticas, mas que se repete de cada vez que não estou em jogo apenas eu própria. Sinto-me dividida, hesitante, com vontade de me retirar. Esta coisa de decidir pelos outros não acredito que aconteça a um homem. Desde então, de cada vez que tenho de fazer escolhas fortes na esfera pública, sinto este apelo para dar um passo atrás. E não me parece que seja uma virtude pacifista, mas o reflexo de quem esteve durante séculos fora dos caminhos da história.

Tinha começado a década na qual o privado se politizou.

*Infelizmente, o livro termina no exacto momento em que queria vê-lo recomeçar: em 1969, ano da criação do grupo «Il Manifesto», resultado de uma cisão no interior do Partido Comunista Italiano. Talvez seja este o primeiro capítulo de um hipotético segundo volume.