7.5.06

Combray quase

Combray futuroÀ memória comum, voluntária, consciente, chamava Proust a «memória da inteligência e dos olhos». A ela se sobrepunha uma outra, feita recordação e esquecimento, cuja irrupção não dependeria da vontade do sujeito mas da relação circunstancial que este poderia ser levado a desenvolver com determinados objectos. Um cheiro, um sabor, uma visão insuspeita, uma madeleine embebida numa taça de chá, despertavam a «memória involuntária», modo inadvertido de trazer de volta sensações antigas sem as confundir com o momento que as havia despoletado. Um «fragmento de tempo em estado puro» apaziguava melancolia e felicidade, evocação e vivência, passado inteiro e presente resgatado. Amanhã de manhã nada disto acontecerá. Mas poderia acontecer.