28.4.06

A materialidade do imaginário

a mulher de porto pimAs letras têm olhos e é por isso que ocasionalmente devíamos visitar os textos que nos falam dos lugares onde estivemos. Não para recordar. Mas para ver melhor. Em O Meu Chapéu Cinzento, Olivier Rolin diz-nos o seguinte: «Só vemos realmente uma coisa quando encontrámos as palavras para a dizer. As palavras, as palavras difíceis que é preciso ir buscar muito longe, por vezes às profundezas da língua, são aquelas que suscitam e fortalecem a imagem de uma coisa». Nem mais. A língua a fortalecer a imagem de uma coisa. As coisas, habitualmente pensadas na sua relação com a materialidade, a serem instituídas por meio do reconhecimento. E o imaginário, esse domínio vilipendiado como inexistente, a adquirir uma realidade maior do que as pedras da calçada. Do que o sol escaldante nas costas. Do que a mulher que não vi em Porto Pim por desconhecer o livro do Tabucchi.