19.4.06

Flanar

olho vivoNos seus estudos sobre Baudelaire, Walter Benjamin mostrou como o ambiente parisiense do século XIX deu origem ao flâneur, figura paradigmática de uma modernidade nascente que tinha nas ruas um palco privilegiado de representação. Vagueando nelas, o flâneur alimentava-se daquilo que lhe atingia o olhar, com o mesmo interesse desinteressado que caracteriza a contemplação erótica, essa capacidade de apelar ao corpo mantendo-o imediatamente aquém do toque. Hoje, a sociedade de controlo empurrou a velha arte de deambular para aquelas plataformas circulatórias a que Marc Augé chamou de «não-lugares». Metros, aeroportos, centros comerciais. Fronteiras que prometem a certeza de um lugar outro. Estranhos vidros duplicados onde a multidão circula num misto de entusiasmo e melancolia, indiferente à sombra atenta que a observa.